Contra-senso

Sexta-feira, Dezembro 26, 2003
"Você tem uma doença estranha que você quer ser criança pra sempre"
A frase foi a brincadeira de um amigo.
Mas pensando bem... crescer foi a pior coisa que me aconteceu. E que ainda me acontece.
Crescer está sendo muito chato.
Envelhecer tem sido... mais melancólico do que eu gostaria que fosse.
Queria ser criança pra sempre, sim.
Morar num sítio.
Ouvir histórias de uma preta velha e ficar com medo, imaginando se elas são verdadeiras, ou não.
Brincar as brincadeiras que crianças mais velhas me ensinaram, inventar minhas próprias brincadeiras.
Não me preocupar com o que está acontecendo com minha própria vida.
Mas não...
Cresci.
Se brinco, passo por boba. Se fico quieta, no meu canto, como é costume, passo por fechada, anti-social, arrogante.
Ninguém sabe me dizer o que querem de mim.
Eu não quero nada dos outros.
Só que parem de me olhar... me observar...
E me deixem em paz...
posted by Uma menina 03:46
Discorde:
Quinta-feira, Dezembro 25, 2003
Olha só, que Natal diferente.
Normalmente, passo na casa de algum parente, e quando dá meia-noite, todos se abraçam e se desejam felizes natais, e eu só faço isso por inércia, porque não sinto espírito natalino, nem entendo de porque toda a festa. Não sinto nada que faça do dia 25 de dezembro, um dia tão especial.
Mas até que hoje foi um dia diferente dos outros anos.
Passei na estrada.
Quando era exatamente meia-noite, eu estava em algum lugar no meio da estrada que dá para o interior paulista, ainda faltando uma hora e meia pra chegar no meu destino final.
Olhei para o céu, todo estrelado, todo iluminado, claro, o céu perfeito das noites na estrada, do qual senti alguma falta em minha permanência prolongada em São Paulo.
E me senti muito melhor do que se estivesse ao redor de uma mesa farta de comida, com pessoas sorridentes e supostamente felizes se felicitando por uma coisa que ninguém mais entende.
Não ganhei presentes. Nem queria. Meu presente mesmo foi o céu. E o fato de ontem eu ter conseguido terminar dois livros, depois de duas semanas sem conseguir ler uma página.
Pois é, voltei pro interior. Só por um dia, mas voltei.
Infelizmente, não poderei ler, por não ter comprado algum livro. E não sei dizer se infeliz ou felizmente não vou ver todas as pessoas que deveria, por falta de tempo.
Desde que me mudei, não senti saudade de ninguém daqui. Ninguém.
Nem mesmo de um caso mal resolvido que tentou me ligar semana passada. Mudei meu telefone.
Agora... não sei o que fazer...
Talvez dormir... e de manhã, vagar pela cidade.
Pois é.
Feliz Natal.
posted by Uma menina 03:19
Discorde:
Segunda-feira, Dezembro 22, 2003
Pois é, estou trabalhando.
Não, não é como das outras vezes, como quando dei aulas de inglês por seis meses e nunca me pagaram um centavo, nem quando trabalhei como sei-lá-o-que numa fábrica e me pagaram com uma alimentação xula e nada de dinheiro.
Dessa vez, tenho carteira assinada, comissão, e toda aquela burocracia chata e irritante de uma pessoa que realmente trabalha. E o pior de tudo é que estou vendendo roupas que não tem absolutamente nada a ver comigo, ou com o meu estilo. E estou vendendo bem.
Fiquei até meio assustada quando percebi que estava dançando ao ouvir uma música escrota da Britney Spears e dizer que a blusinha ultra-fashion que uma menina tinha experimentado era "tudo de bom". Mas estou trabalhando.
Como minha primeira experiência no mundo do trabalho com carteira assinada, horário e cota a cumprir, devo dizer que está sendo muito bizarro.
Não posso mais ler. Chego em casa exausta, tomo um banho, coloco um cd pra tocar e durmo feito condenada. Sem ler, não me sinto disposta a escrever. E quando escrevo, é somente um pequeno diário do que tenho feito, de algumas sensações inúteis, e nada que valha a pena.
Estou chorando. Bastante, aliás. O que não é nada normal, sendo que a última vez que chorei foi num velório, há dois anos.
Na minha folga (minha primeira), saí para fazer algumas coisas. Quando voltei pro apartamento, chovia, e não acendi a luz. Fui até a sacada e fiquei chorando, no escuro. Tomei um banho e deitei no chão da sala. Comecei a reparar no apartamento.
Como ele é pequeno. Um quarto. Uma sala. Uma cozinha. Um banheiro. Sem fogão, sem vídeo, sem rádio, sem nada. Uma cama, um sofá, uma cadeira abarrotada de papéis. Nunca me sentei na cadeira. O sofá, só dá pra usar metade como sofá. A outra metade está cheia de livros, cds, revistas, contas. A cozinha... uma infinidade de nada.
Pois é. Deitei no chão e dormi. Percebi que esse negócio de trabalhar mesmo não é muito pra mim.
Mas já que me lancei ao desafio, vou cumpri-lo até o final.
Estou me virando bem aqui na Frei Caneca. Conheci já algumas pessoas e conquistei, estranhamente, alguns clientes.
Vai saber o que é que vai dar.
E quem me vier com bom Natal, que se foda.
posted by Uma menina 20:58
Discorde:
Sábado, Dezembro 06, 2003
Por que quando tudo parece estar calmo, algum acontecimento faz minha cabeça ficar toda confusa a ponto de querer, novamente, sumir do mundo?
Uma coisa que eu não entendo é como as pessoas relacionam beijos e carícias físicas com sentimentos. Como conseguem juntar o mundo físico e o espiritual tão facilmente? A coisa mais fácil do mundo é ficar com uma pessoa. Outra coisa, muito mais complicada, é conviver com ela, aceitar as diferenças, e ainda assim se dar bem.
Pra mim, relacionamentos são impossíveis. Não consigo me prender sentimentalmente a ninguém. Nunca consegui nem com meus próprios pais, quanto mais um estranho qualquer que apareceu há poucos meses na minha vida. Nada de palavras doces, discutir a relação, romantismo exacerbado. Já tentei. Nunca me senti bem.
Então, resolvi partir para somente o contato físico, para a satisfação carnal, e continuar com minha vida vazia e medíocre como sempre foi. Sozinha.
Tantas mulheres reclamam que os homens não querem relacionamento. E as que não querem, acabam achando justamente os poucos no mundo que querem coisa séria.
No que eu me meti?
posted by Uma menina 01:27
Discorde: