Contra-senso

Sábado, Março 27, 2004
Tudo o que ela tinha era papel e caneta. Então ela escrevia.
Sobre coisas que nunca viu, cidades que ela nunca esteve, pessoas que ela nunca conheceu. Histórias de vidas que ela nunca poderia ter.
Tudo em montes de papel, e pilhas de canetas que acabavam, ao longo dos anos. Sempre escrevendo.
Tentava, muitas vezes, desenhar. Não era boa nisso, mas tentava. Para dar uma pitadinha maior de realidade às coisas que suas letras viviam.
Por ali, era livre. Mais livre que os pássaros no céu, ou os peixes na imensidão do Oceano. Sabia mais sobre o Universo que as próprias estrelas. Sentia a liberdade da maneira mais bela e pura.
Era livre... presa em seu quarto, rabiscando um caderno...
posted by Uma menina 18:38
Discorde:
Terça-feira, Março 23, 2004
Cinza. Laranja. Amarelo. Cinza. Branco. Cinza. Azul. E a lua.
Ah, a lua...
posted by Uma menina 18:27
Discorde:
Sexta-feira, Março 19, 2004
Lindo dia pra casar. Ela estava feliz, muito feliz. Ele a amava muito.
Presentes. Convidados. A cerimônia, ah, bela cerimônia. O padre falou bonito.
O bolo? Uma delícia! Foi o dia perfeito.
Ela não conseguia entender como podia estar tão feliz. Tinha tudo o que queria. A família estava contente. O seu seria o melhor dos maridos. Sua vida estava se completando.
A lua-de-mel seria igualmente perfeita. Tudo como havia sonhado um dia, quando ainda era menina.
Quem diria que ela acordaria numa cama de hospital, com seqüelas permanentes, surda, depois de apanhar do marido que a amava tanto?
posted by Uma menina 22:35
Discorde:
Quinta-feira, Março 18, 2004
Eu não tenho amigas. Perdi-as para o tempo, a distância, e pequenos acontecimentos que nos afastaram por falta de diálogo.
Não tenho com quem conversar. Não tenho com quem sair num sábado à noite pra tomar alguma coisa e rir à toa.
Não tenho pra quem ligar. Seja no meio da tarde, sejam 2h da manhã, não tenho um número pra discar, ninguém pra me atender.
Não tenho mais amigos, e parece que eles nem sentem falta disso. Dos poucos encontros que sobraram, nada se aproveitou, e foram encontros mais formais que qualquer outra coisa.
Não tenho mais com quem viajar. Com quem ouvir música. Com quem comer um escondidinho de carne seca num barzinho fuleiro de uma cidade pequena de interior.
Não tenho um amor. Pretendentes não são amores. Sinto não ter um amor.
Não tenho vida. Muito menos morte. Não tenho nada.
...nada...
posted by Uma menina 22:37
Discorde:
Terça-feira, Março 16, 2004
Era um dia como esse. Um dia de outono no verão.
Era, ainda mais, um 16 de março. Tardezinha.
Ela saiu de casa, meio trêmula. Nervosa por motivos que nem ela mesma entendia. Inventou um pretexto e saiu.
Comprou cigarro. Fumou só um, guardou o maço. Começou a pensar.
Pensou, pensou, pensou.
E de tanto pensar, não percebeu quando começou a andar pela rua movimentada.
E não viu quando um carro veio em sua direção.
Só teve tempo de ainda pensar que deveria ter parado de fumar.
posted by Uma menina 19:51
Discorde:
Sábado, Março 13, 2004
Relíquias de mamãe:
"A vida é o próprio mar. Venturas e desventuras são suas marcas, mas cabe ao navegador acreditar que sua força está em seu pensamento, que é a onda destruidora das tormentas, e que a palavra escrita poderá levá-lo a outros mares".
posted by Uma menina 17:40
Discorde:
Não, não cortei meus pulsos.
Tampouco tomei remédios.
Não pulei da janela do meu quarto.
Não me enforquei com uma corda podre.
Por que?
Covardia.
posted by Uma menina 15:51
Discorde:
Sexta-feira, Março 12, 2004
E lá estava.
Estática. Orgástica. Inacreditável.
O mundo sumiu, o passado sumiu, o futuro nunca veio. Existia o agora. Só o agora.
Agora, agora, agora.
posted by Uma menina 17:43
Discorde:
Terça-feira, Março 09, 2004
O sol me cegou, mãe. Preciso da sua ajuda agora. Preciso da sua ajuda porque não consigo mais andar. Não vejo nada além de um preto constante que atormenta minha mente. Não vejo nada, mãe. Dá sua mão aqui, me ajuda a levantar, não sei aonde vou parar, como vou conseguir andar? Me ajuda, mãe, que só você pode. Dá suas lágrimas que curam pros meus olhos cansados. Deposita aqui seu amor infinito que vai além dos olhos. Descobre uma maneira de ajudar sua filha desesperada, mãe. Porque o sol me cegou. E só tenho você comigo agora.
posted by Uma menina 16:46
Discorde:
Ele não me viu.
Afinal, porque haveria de ver? Ser invisível é isso. Estar longe da mente, estar longe do coração, estar longe... Ele não me viu.
Não me viu caindo, não me viu perdendo o controle. Não viu o choro desesperado que eu tentava segurar. Não viu meu rosto enquanto eu gritava por ajuda. E não viu quando ninguém ajudou.
posted by Uma menina 16:36
Discorde:
Quinta-feira, Março 04, 2004
Chore agora, menina. Chore enquanto há tempo. Amanhã o sol não se lembrará de você e voltará a brilhar. Chore, menina, enquanto pode. Suas lágrimas secarão e só sobrará a amargura. Chore agora enquanto não lhe ouvem. Aproveite a solidão para você mesma. Aproveite as lágrimas para o seu choro sincero. Chore, que ninguém vai ver seu rosto marcado, a maquilagem manchada, o orgulho ferido. Chore, que está tudo bem. Chore, que está tudo errado. Chore, que é o choro baixinho encurralado no canto do olho. Deixe ele chorar.

posted by Uma menina 20:57
Discorde: