Contra-senso

Sábado, Junho 26, 2004
Era uma noite como qualquer outra quando alguém bateu à porta. Estranho isso acontecer, ninguém nunca vinha bater à porta, nem para visitar, nem para vender enciclopédia, nem pra pedir esmola. A verdade é que nunca se ouviu bater àquela porta.
Mas naquela noite, o estranho acontecimento quebrou o silêncio habitual. Alguém mudou o que sempre foi. Mudou o imutável: o silêncio e a solidão da noite atrás da porta. Não se soube o motivo, não se soube quem o fez, não se soube o que aconteceria se tivessem atendido à batida. Só o que ficou claro foi que nada seria o mesmo dali pra frente. Três batidas surdas à porta mudariam tudo o que já estava em seu devido lugar.
posted by Uma menina 22:55
Discorde:
Quarta-feira, Junho 16, 2004
Pra falar a verdade, tenho medo.
Medo de facas. Medo de escuro. Medo de doenças.
Medo da morte.
Medo, ainda mais, da vida. Medo de amar. E medo de solidão.
Medo da rua. Medo de voltar pra casa. Medo de sofrer, e medo de terminar a vida percebendo que não vivi por medo de me machucar.
Medo das pessoas. Mais medo de mim mesma. Medo do ridículo. Mesmo que eu faça de tudo para parecer que não ligo.
Medo de que me julguem e descubram que eu não sou nada do que pensam.
Medo de descobrir que não sou nada que penso que sou.
Medo de prisão. Medo maior de liberdade.
Tenho medo de abrir os olhos e descobrir o mundo.
E medo maior de fechá-los para sempre sem nunca ter enxergado tudo o que poderia, se não tivesse tanto medo.
posted by Uma menina 20:59
Discorde:
Domingo, Junho 06, 2004
Está cada vez mais difícil respirar.
Tosse. Dor. Aquele momento em que o ar parece que nunca mais vai entrar pelos pulmões.
Respira... respira... já vai passar...
Já vai passar...
Me passa um cigarro, que já vai passar...
posted by Uma menina 19:11
Discorde:
Terça-feira, Junho 01, 2004
Lembro que antes pensava que quem eu conhecia estava agindo de modo estranho. Percebia que eu continuava a mesma enquanto todos mudavam.
Parece que chegou minha vez de mudar. Estou me sentindo como se voltasse à pré-adolescência e começasse a descobrir a mim mesma e ao mundo. Parece que tudo o que eu já mudei até hoje, foi só um preparo para o que estou me tornando agora. Estou estranha a mim mesma.
Talvez tivesse sido a vida toda, e só agora perceba que nunca fui sincera. E perceber isso me faz andar tão desligada a ponto de não sentir meus pés no chão, como se fosse uma música antiga. Para qualquer coisa que faço, há um ou dois momentos em que paro e penso "desde quando estou fazendo isso?". Não consigo me lembrar de quando comecei. Mesmo que tenha sido dois minutos atrás.
Minhas mãos tremem, não me concentro. Não me lembro da última vez em que realmente fiz alguma coisa.
Minha mente parece lenta demais, e não consigo acompanhar a mim mesma.
Recebi hoje uma carta. Daquelas manuscritas, à maneira antiga. E mal consigo pensar para escrever e responder. Não consigo mais escrever, pensar, ou fazer qualquer coisa direito.
Nessas horas, mais do que nunca, penso como seria bom fugir de tudo. Até de meu corpo.
posted by Uma menina 20:11
Discorde: